Brasil entre a energia limpa e o carvão, retrocessos em pleno ano da COP30
O Brasil está mesmo recuando na transição energética?
A matriz elétrica brasileira sempre foi motivo de destaque internacional. Com cerca de 80% da energia proveniente de fontes renováveis, o país é visto como um exemplo raro de abundância energética limpa. Sol, vento e água fazem parte do cotidiano e também da infraestrutura que move a economia nacional. No entanto, nos últimos meses, algumas decisões e movimentos do setor energético colocam esse protagonismo em xeque.
Um dos sinais mais preocupantes veio com a notícia de que o Brasil pode estar voltando a recorrer ao carvão mineral como solução emergencial para evitar apagões. A justificativa parte da necessidade de garantir estabilidade no fornecimento de energia em momentos críticos, como os picos de consumo à noite ou em períodos de estiagem. Em tese, esse seria um recurso “de reserva”. Mas o fato de reabrir espaço para uma fonte altamente poluente como o carvão, que já deveria estar em processo de desativação, acende um alerta importante sobre os rumos da nossa política energética.
Ao mesmo tempo, crescem os obstáculos para a expansão de fontes limpas. O caso mais emblemático é o aumento sucessivo da tarifa de importação sobre painéis solares. Em menos de dois anos, o imposto saltou de 0% para 25%. A justificativa é estimular a produção nacional, mas o impacto imediato é a elevação dos custos para consumidores, empresas e pequenos produtores que querem investir em energia solar. Na prática, essa mudança desestimula justamente o setor que deveria ser uma prioridade no processo de transição energética.
A contradição entre esses dois movimentos, um incentivo indireto à energia fóssil e um desincentivo direto à energia limpa, levanta uma questão inquietante: por que o Brasil, com todas as condições naturais e técnicas para liderar a revolução energética sustentável, parece estar andando para trás?
É importante entender que garantir segurança energética não precisa significar retrocesso ambiental. O país tem capacidade de investir em soluções modernas, como sistemas de armazenamento, diversificação de fontes e aperfeiçoamento da gestão da demanda. O carvão não é a única alternativa possível, e, definitivamente, não é a mais coerente com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil nas últimas conferências do clima.
Além das implicações ambientais, há uma questão econômica em jogo. A energia gerada a partir do carvão é cara, sujeita à volatilidade dos mercados internacionais e acompanhada por custos indiretos altos, como os impactos na saúde e no meio ambiente. Apostar em fontes fósseis é manter uma matriz mais onerosa, menos eficiente e desalinhada com as tendências globais.
Outro ponto sensível é a imagem internacional do país. Em 2025, o Brasil sediará a COP30, no estado do Pará, evento que colocará o país sob os holofotes do mundo inteiro. Esse deveria ser um momento para demonstrar liderança climática e capacidade de articulação em prol de uma transição justa e urgente. Mas, diante das recentes decisões, a impressão que se passa é a de uma incoerência entre discurso e prática.
É evidente que a gestão energética de um país com as dimensões do Brasil envolve desafios complexos. No entanto, decisões estratégicas precisam ser orientadas por uma visão de futuro. E o futuro, em qualquer cenário responsável, passa pela energia limpa, acessível e descentralizada. Voltar ao carvão ou tornar mais difícil o acesso à energia solar são escolhas que comprometem essa visão.
O Brasil tem a oportunidade de mostrar que é possível crescer e, ao mesmo tempo, preservar. Que é viável garantir segurança energética sem abrir mão da sustentabilidade. Que existe um caminho técnico, econômico e socialmente justo para fazer a transição. Mas isso exige coerência. Exige clareza sobre onde queremos chegar. E, principalmente, exige decisões corajosas, não baseadas no imediatismo, mas comprometidas com o longo prazo.
Se somos o país da biodiversidade, da energia renovável e da potência climática, está na hora de fazer jus a esse papel.
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